domingo, 23 de janeiro de 2011

Cantigas modernas I



Ai flores, ai flores do verde plástico!
Sabeis notícias de nosso humor cáustico!
E ai, onde estará?

Ai flores, ai flores do verde Rubem Fonseca!
Sabeis notícias de nossa prosa tão seca!
E ai, onde estará?

Ai flores, ai flores do verde Macunaíma!
Sabeis notícias da moderna Literatura Brasileira!
E ai, onde estará?

Ai flores, ai flores da verde mata hierática!
Sabeis notícias de nossa veia poética errática!
E ai, onde estará?

Ai flores, ai flores do verde-podre do valão entupido!
Sabeis notícias de nosso Drummond tão querido?
E ai, onde estará?

Ai flores, ai flores da verde paciência!
Sabeis notícias de nossa machadiana inteligência?
E ai, onde estará?

Se sabeis, ó flores da verde energia!
Contai-me, pois, para sanar essa minha nevralgia!
E ai, onde estará?

Se sabeis, ó flores das verdes tardes nostálgicas!
Contai-me, pois, para sanar minhas cólicas bucólicas!
E ai, onde estarão?


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O PESADELO DA BARBIE


Garotinha quando nasce se esparrama pelo chão.

Bonequinha quando cresce vira escrava no fogão.

Menininha quando acorda vai logo fazer chapinha.

Princesinha quando casa vira louca e suicida.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O NATAL


Tempo de paz, amor e gastar
comer, sorrir e sonhar
o sonho idílico comprar
"baratinho" no Shopping Boulevard

Ó Natal, sonhada data comercial,
dai-nos vendas e bastante capital.
E o seu próprio sentido perdido
entre as roupas caras do meu C&A querido.

A árvore com bastante presente
que coisa mais linda e decente...
Papai Noel já vem, sei lá de onde,
deve ser da Disney ou da terra do Conde.

Engraçado, o bom velhinho visita muita gente boa:
os senadores, os banqueiros, os vereadores com uma conta bem gorda.
Porém ele usa vermelho (será que é comunista?),
vamos mudar a cor de seu uniforme para verde-capitalista.

Ó Natal, sonhada data comercial,
dai-nos vendas e bastante capital.
Vou gastar meu décimo terceiro, quem diria,
minha cidadania é meu crediário nas Casas Bahia.

Ó que tempo bonito, todo mundo fica um pouco melhor.
É tempo de perdoar: o amigo é mais amigo, esquece-se o que há de pior.
Inclusive o rombo que a prefeita fez no orçamento da prefeitura,
uma brandura, candura, doçura, presença única.

É melhor que época de copa do mundo, é tempo de paz,
cumprimenta-se e fala-se mal por de trás.
Todo mundo é bonzinho, menos o bandido do morro do Alemão
que a Globo me disse que tem que ir pro Caveirão.

Ó Natal, sonhada data comercial,
dai-nos vendas e bastante capital.
E que em 2011 eu me torne um ser humano melhor, ou seja,
pague as dívidas, compre um carro e muita cerveja!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Porteiro


-Mas doutô eu num vi nada!

-Viu sim, aquela maldita estava com o amante!

-Eu num sei de nada, num sô observante.

-Quanto ela te deu para ficar de boca fechada?


-Ela quem doutô? Sô um hômi simplório.

-Minha esposa, aquela safada.

-Num fala assim da coitada.

-Defendeste ela? Tu tem culpa no cartório!


-Culpa quem doutô? Sô inocente.

-Isso só diz quem se defende.

-Mas se num mi defendo o doutô mi prende.

-Te prendo por quê? Abra o bico, servente!


-Doutô, num sei de nada, já disse.

-Não creio em você, estás a me enganar.

-Doutô, a galhada é sua, nada tenho a declarar.

-Galhada? Que galhada? Explique-se!


-Desgraçada! Me chifrou com todo mundo.

-Doutô, corno todo mundo é, basta ter muié.

-Ai meu Deus, então ela me traiu? Com qual vagabundo?

-Doutô, péra lá, eu não sou vagabundo, pega leve né....



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mulher do século XXI !?


Tenho que ser feliz,
saudável, da moda.
Vou ser amada, querida,
ter toda a admiração.

Tenho que ser um avião,
um mulherão, "a" gatinha.
Vou fazer catarse
na esteira da academia.

Tenho que ser inteligente,
disciplinada, paciente.
Vou cuidar para que
meu filho não fique doente.

Tenho que ser loura de cabelo liso,
Victoria Secret, estilosa, badalada.
Vou fazer escova inteligente, definitiva, progressiva,
marroquina, japonesa, árabe, americana,
de chocolate, de morango, de açúcar, cristalizada,
e de outras nacionalidades e sabores...

Tenho que ser boa profissional,
objetiva, instrutora, operacional.
Vou trabalhar, trabalhar, trabalhar,
para pagar as contas no final da semana.

Tenho que ser excelente mãe,
ótima esposa, tchutchuca e "boa de cama".
Vou colocar piercing, silicone, botox,
tomar rivotril, diazepam e dipirona.


sábado, 6 de novembro de 2010

Cocota



Cumé qui é vacilão

Num sô mulé de bobêra

Sô gramurosa, sô partidão

Sô castelão a noite inteira


Cadiquê sô filezona do pedaço?

Purquê os preibói fica na minha

andu di moto suzuqui e carro só Picasso

sô cachorra sô gatinha


Sô purpurinada, sô tudo de bom

Desce e sobe, de ladinho

Só dá eu na Furacão

Sô da gaiola, sô do bonde do vinho



ps.: em homenagem aos funkeiros que se satisfazem fazendo catarse ao som dos pancadões

Dona Augusta


Dona Augusta odiava-se

Por ter nome de rua famosa

Contorcia-se, castigava-se

Motivo de chacota, piada maldosa


Quis morrer, fustigava-se, flagelava-se

Quando a chamavam de mimosa

“É tudo nome de rua!” – dizia-se.

Dona Augusta deprimia-se, andava sempre desgostosa


Um dia, no alto do morro barrento

Dona Augusta resolveu o seu tormento

Exibiu nova certidão de nascimento

“Meu nome agora é Salomé, seus jumento!”


Coitada de Dona Augusta, agora Salomé

“Exegese e hermenêutica? Não sei o que é!”

O povo do morro, irônico e sarcástico, continua a pegar-lhe no pé

"Olha lá Augusta Salomé, nome de rua, dançarina de cabaré!”